Bruxismo


Entendimento clínico e abordagem terapêutica integrativa

O bruxismo não é uma doença isolada nem um problema exclusivamente odontológico. Trata-se de um comportamento motor complexo, com origem central e natureza multifatorial, frequentemente relacionado à regulação do sono, ao sistema nervoso e a fatores psicofisiológicos. Ranger ou apertar os dentes é, muitas vezes, a expressão periférica de um organismo em estado de desregulação.

Ao longo dos anos, a ciência evoluiu significativamente na compreensão do bruxismo. Modelos antigos, baseados quase exclusivamente na oclusão dentária, mostraram-se insuficientes para explicar a diversidade de manifestações clínicas observadas no consultório. Hoje, o bruxismo é compreendido dentro de um modelo biopsicossocial, no qual fatores neurológicos, comportamentais, emocionais e funcionais interagem de forma dinâmica.

Minha visão clínica sobre o bruxismo

Na minha prática clínica, compreendi que tratar bruxismo não significa eliminar um sintoma, mas entender o contexto em que esse comportamento surge e se mantém. Dor facial, desgaste dentário, tensão muscular, cefaleias, distúrbios do sono e fadiga mandibular não devem ser abordados de forma isolada ou com soluções únicas e padronizadas.

O bruxismo deve ser interpretado como um sinal, não como um inimigo. Silenciar esse sinal sem compreendê-lo pode proteger estruturas dentárias no curto prazo, mas raramente promove saúde de forma sustentável.

Essa compreensão orienta toda a minha atuação clínica.

O que é o bruxismo à luz da ciência atual

De acordo com o entendimento científico contemporâneo, o bruxismo é classificado como um comportamento motor, que pode ocorrer durante o sono ou em vigília, e que não deve ser automaticamente rotulado como patologia. Em muitos casos, está associado a microdespertares do sono, instabilidade do sistema nervoso autônomo, estresse crônico, ansiedade, uso de determinadas medicações e alterações na arquitetura do sono.

Isso explica por que pacientes com bruxismo frequentemente relatam:

  • sono não reparador,

  • sensação de cansaço ao acordar,

  • dores musculares ou articulares,

  • dificuldade de relaxamento,

  • desgaste dentário progressivo.

Compreender esses mecanismos é essencial para um manejo clínico responsável.

Como conduzo o manejo do bruxismo

O manejo do bruxismo é um processo clínico contínuo, individualizado e dinâmico. Não se trata de um procedimento único, mas de um plano de cuidado construído ao longo do tempo, respeitando a fisiologia e a história de cada paciente.

Minha abordagem inclui, de forma integrada:

  • Avaliação clínica ampliada, que considera queixas, hábitos, rotina de sono e sinais funcionais;

  • Educação do paciente, como eixo central do tratamento;

  • Proteção das estruturas dentárias, quando indicada, por meio de dispositivos intraorais utilizados de forma criteriosa;

  • Análise funcional do sistema mastigatório, incluindo musculatura e articulações;

  • Integração interdisciplinar, com outras áreas da saúde, sempre que necessário;

  • Acompanhamento contínuo, com ajustes progressivos ao longo do tempo.

O objetivo não é suprimir o comportamento bruxista a qualquer custo, mas reduzir impactos, melhorar a qualidade de vida e favorecer autorregulação.

O papel da ortodontia no cuidado com o bruxismo

A ortodontia faz parte da minha formação e atuação clínica e pode, em casos selecionados, integrar o plano de cuidado do paciente com bruxismo. Alterações na posição dentária, na relação entre os arcos ou na função mastigatória podem contribuir para sobrecargas e desconfortos quando não avaliadas de forma adequada.

Quando indicada, a ortodontia é utilizada como recurso complementar, nunca como solução isolada. O foco permanece no equilíbrio funcional, na adaptação biológica e no respeito aos limites individuais de cada paciente.

Quando procurar uma avaliação especializada

Uma avaliação criteriosa é recomendada quando há:

  • ranger ou apertar os dentes, principalmente durante o sono;

  • dores faciais frequentes ou sensação de tensão mandibular;

  • desgaste dentário progressivo;

  • cefaleias recorrentes sem causa aparente;

  • estalos ou desconfortos na articulação temporomandibular;

  • sono não reparador associado a sintomas musculares.

Quanto mais cedo o bruxismo é compreendido, maiores são as possibilidades de manejo consciente e sustentável.

Uma abordagem ética, baseada em ciência

Rejeito promessas de cura, soluções rápidas e abordagens reducionistas. Defendo uma Odontologia baseada em evidências científicas, experiência clínica e respeito à complexidade do ser humano. O bruxismo exige escuta, interpretação e acompanhamento — não atalhos.